São Tomé sem Príncipe, a viagem.


A minha viagem a São Tomé, a tão esperada viagem àquela ilha por muitos esquecida, foi feita de máquina, bloquinho e caneta em punho. A ideia era conseguir descrever todas aquelas sensações fantásticas que o universo me proporcionava, por isso anotava cuidadosamente os lugares por onde passava e os nomes das pessoas e tudo. Levava comigo o caderno onde tinha feito os apontamentos do curso de escrita para viagens que já vos falei algures neste blog e, portanto, passei uma semana inteira a tentar perceber quem seria o protagonista da minha estória (acabei de confirmar no Priberam que a palavra *estória* já consta no dicionário de português de Portugal, yuupii!!! Em breve post sobre acordo ortográfico). Bom, a pressão de encontrar o protagonista foi tanta que bloqueei. E agora, às portas de celebrar um ano do magnífico resgate de parte da minha identidade, resolvo sentar-me à escrivaninha e voltar àquela semana de novembro do ano passado em que as palavras paraíso, liberdade e vida se uniram e ecoaram no mais íntimo canto da minha alma com todo o fervor.

Os apontamentos com várias indicações turísticas, ah, esses já foram objecto de transformação artística por parte do meu pequeno de sangue forro – sim, algures na miscelânea da minha árvore genealógica, há indicações de são-tomenses por lá. Ora, o que aqui vai não pode ser considerado algo como um guia turístico e ficam já as desculpas por algum local ou episódio que não for mencionado. Que venha conteúdo com a emoção que desperte ao leitor a vontade de ir. De se libertar. De viver, por pouco tempo que seja, a ideia de paraíso.

Esta viagem, eu gostaria de ter organizado com algum tempo de antecedência por causa das vacinas que poderiam ser necessárias, ou mephaquines que tivessem de ser ingeridos (a minha caixinha está intacta na micro-farmácia que tenho em casa e ofereço a quem quiser pois está no prazo de validade e ainda custa 20€ e nunca irei usar). Precisaria também de tempo para reunir roupas, livros e tudo aquilo que pudesse levar para um povo que carece de ajuda.

Numa quarta-feira à tarde obtive a confirmação de que poderia viajar e segunda-feira seria a data de embarque. O mais importante era o visto que, miraculosamente, saiu em dois dias úteis. Os dias de véspera foram passados a fazer 2 malas enormes (levava muito excesso de bagagem) em que, para mim, levava o indispensável de roupa leve, simples e fresca.

Voltando ao tema Mephaquin, por muito que vos digam que em São Tomé há malária, quando lá chegarem vão perceber que a probabilidade de encontrarem um mosquito desses é tão ínfima que não valerá a pena passarem a única semana de férias que têm (se for esse o caso) com todos os efeitos colaterais que esses comprimidos provocam. Durante as poucas vezes que estive com portugueses – e de férias – eu era a única que estava realmente a aproveitar o momento enquanto os outros estavam ou deprimidos ou paranoicos ou enjoados!

Bom, preparações feitas, embarque concluído, voo noturno como adoro, tudo perfeito. Há uns anos atrás já tinha sobrevoado a ilha, mas não tinha tido a oportunidade de lá ficar. Sabia que era muito verde, infinitamente mais verde do que algum dia Cabo Verde foi ou será. E isso, para uma sportinguista resignada é sempre bom!

Voltando a comparar este arquipélago ao cabo-verdiano – e atenção que sou apaixonada por todas as ilhas crioulas que conheço – quando se desembarca em São Tomé, sente-se aquela humidade (continuo à espera de acordo ortográfico para esta palavra pois qualquer brasileiro que me leia, vai torcer o nariz) própria de África. Aquele cheiro. Para pessoas como eu, com uma memória extremamente ligada ao olfato, é justamente o cheiro a terra e vegetação que remete à sensação de se estar em África, o que não se sucede com o ar seco de Cabo Verde.

A confusão dos aeroportos pequenos e sem ar-condicionado, já conhecia. Meio sonolenta, estava eu ali. Na ilha. Sozinha. Que emoção. E agora? Ali começava tudo.

Quando eu digo que o universo me presenteou com aquela viagem, digo com toda a certeza. Sabem quando tudo flui, tudo acontece da melhor maneira que quase que dá para ouvir um anjinho a dizer: “Toma, é teu”? Foi mesmo assim. Desde a emissão do bilhete à aterragem em Lisboa onde o meu filho me esperava sorridente a dar os seus primeiros passos. Inesquecível.

Um senhor me esperava no Aeroporto Internacional de São Tomé e Príncipe.  Resolveu as burocracias de forma ágil e rápida. Pouco tempo depois estava na rua, onde crianças me rodearam a pedir aquilo que todos que já foram a São Tomé sabem: doces! Eu ia prevenida com Toblerones que tinha comprado no free shop. Confesso que já tinha provado da embalagem, mas foi suficiente para dividir irmãmente por uns quantos meninos, incluindo Aylton, com quem estabeleci uma empatia imediata.

Fiquei muito bem instalada com direito a varanda com vista de mar em casa de uns amigos da família. É muito menos impessoal do que um hotel. Eu gosto muito de viajar e ser recebida por amigos, seja onde for. Aliás, normalmente, viajo sozinha e o pretexto é ir visitar amigos ou família. Não sei se por ter passado muitos anos em hotéis, flutuantes ou não, hoje aprecio mais aquele pequeno-almoço caseiro do que os buffets exuberantes dos hotéis.

Maria fazia todas as manhãs ovos mexidos e café que servia numa mesa farta com fruta e pão. Sentava-me sempre sozinha à mesa e ficava a fazer-lhe perguntas sobre tudo. Maria respondia-me com um sorrido envergonhado e muito gentil. Todos os meus dias começavam cedo e assim, a comer o pequeno-almoço preparado por Maria.

O primeiro dia foi passado a passear a pé pela cidade para reconhecer território. Fui ao banco trocar euros por dobras e nesse momento encontro Aylton, o menino de olhar profundo do aeroporto. Não resisti em convidá-lo para almoçar. E disse-lhe para trazer os amigos. À tarde apanhei uma moto-taxi para conhecer os arredores. Queria muito ir ao Pantufo perguntar se alguém conhecia a minha bisavó, conhecida localmente por Dona Feia. Consegui saber em que casa viveu e descobrir que, curiosamente, hoje pertence à família de João Carlos Silva, com quem mais tarde privei e estabeleci uma relação de amizade.

O primeiro dia é sempre aquele em que, ansiosos, queremos fazer tudo, devorar a viagem numa só mordida, e, normalmente, o dia em que cometemos mais erros.

Logo chegou o segundo dia, o dia em que deveria estar bem cedo num dos hotéis do grupo Pestana para encontrar o motorista que tinha sido gentilmente destacado por outros amigos para levar-me pelos caminhos que a viagem me reservava. Ele não era motorista de profissão, mas iria suspender as suas funções durante o período em que me mostrava a ilha. Nunca me vou esquecer do sorriso que lhe escapou dos olhos quando entrei no jipe. Posso dizer hoje que foi ali que começou a minha viagem. E também uma grande amizade. Aliás, com o distanciamento que o tempo criou, hoje vejo que, sem dúvidas, Ivaltino foi o grande protagonista desta estória. Mais um presente para o pacote.

Logicamente, não vou descrever todos os dias da jornada, aliás, para post de um blog já devo estar a extrapolar largamente os caracteres supostos, mas visto não ser uma blogger, acho que posso. Vou, pelo menos, tentar deixar um top 10 São Tomé no final.

A primeira coisa que disse a Ivaltino depois das apresentações foi: “Sabe aqueles lugares luxuosos aqui de São Tomé? Sabe mesmo? Eu não quero ir. Isto não é conversa de turista que sempre diz querer conhecer o que é local e acaba nos melhores restaurantes. Tudo o que é luxo eu já conheço. Vim para São Tomé conhecer a terra, as pessoas. As pessoas, a terra. Só.” Ele percebeu exatamente aquilo que lhe disse e foi o melhor guia que poderia ter pois para além de um local é um surviver. Tal como eu. Fizemos uma dupla sem igual.

Grande parte dos nossos dias foi passada dentro do jipe pois para se fazer quarenta quilómetros naquelas estradas demora-se muito tempo mesmo. Demos boleia a centenas de pessoas durante aquela semana. Senhoras que iam trabalhar na roça, crianças que iam para  a escola, pescadores que voltavam do mar. Estendemos o mapa e estipulamos um plano para conseguir fazer tudo o que eu queria, o que, logicamente, não deu. Vou ter de voltar.

Na emblemática Roça de Bombaim, no distrito de Mé-Zóchi, provei pela primeira vez mangostão, aquela que é considerada por muitos a fruta tropical mais saborosa do mundo. Adorei. A fruta e o momento com as crianças e um senhor de longas cãs que simplificava os largos anos de vida com poucas palavras.

A caminho, lavei a alma com a água gelada da cachoeira de São Nicolau. Um frame que ficará gravado na memória associado a prazer.

Uma das curiosidades que descobri com Ivaltino é que muitos forros são  bígamos, e era o caso dele. Um dia levou-me a jantar numa de suas casas um peixe fresquinho feito por uma de suas mulheres e apresentou-me uma de suas filhas. No outro, convidou-me para jantar um Calulú, prato típico são-tomense, em casa de outra família que lidera, que inclui mulher e filha. As palavras uma e outra aqui não têm qualquer sentido pejorativo, precisei mesmo delas para tentar descrever. Elas sabem uma da outra e aceitam, pois o amor que sentem por ele assim o pede, segundo explicam. Ele sustenta as duas casas e divide os dias da semana para dormir com uma ou outra mulher. Achei aquilo tudo muito curioso. Fui muito bem tratada por ambas e preferi encarar toda aquela realidade com um sorriso na boca. Disse-lhe que deve adorar uma dor de cabeça. Uma mulher já deve ser tão difícil de aturar. Duas? Ufa. Só de pensar fico cansada.

O dia da libertação das tartarugas bebés, do projeto Marapa, na Praia do Morro Peixe, foi deslumbrante. Este projeto é muito consciente e trabalha arduamente para a preservação das tartarugas marinhas, o que não é fácil pois muitos habitantes gostam mesmo é de as comer. Já eu, comi muita Jaca nessa praia depois de banhar-me naquele pedaço de Atlântico a 28ºC. Quando for, procure por Poli, o responsável pela associação. Se tiver sorte, vai almoçar muito bem e ouvir sobre todo o processo utilizado para preservar esse lindo animal ameaçado de extinção.

A cidade raras vezes me viu, pois saía muito cedo para o mato e para praia e voltava cansada sem disposição para socializar. Quando chegava a casa, depois de um bom duche, punha-me a ler Domingos Amaral. Mas, houve uma noite que me forcei a visitar a Bienal. Queria ver as obras e provar a tão falada comida do conhecido João Carlos Silva. Havia faltado a luz, por isso petiscamos à luz de velas, o que tornou o momento intenso e mágico. Conheci aí Kwame, um artista plástico de renome, que se tornou grande amigo e levou-me a conhecer a Roça São João dos Angolares, num dia de chuva forte que abençoou o passeio. É um lugar onde se respira paz. Uma energia tão boa que fiquei com pena de ter ficado só um dia. Gostava de passar lá uma semana inteira, no mínimo. Sem falar na decoração, que bom gosto. Tirei muitas fotografias. E bebi umas cervejas frescas deitada na rede enquanto chovia lá fora. Cheirava a felicidade.

Rumo ao Sul  – aqui entre nós, onde estão as melhores praias – chegamos à Praia Piscina. Deserta. Exuberante. Do tipo, wow! As únicas pegadas daquele pequeno areal eram as minhas. Cliquei no off do cérebro e desfrutei o momento. A vida estava tão difícil naquela ocasião que fiquei com fome. Sem saber onde iríamos almoçar, entrámos nos jipe e seguimos viagem com destino à aldeia de Porto Alegre.

Na estrada caminhava um casal de pescadores que vinha carregado do mar. Ofereci-lhes uma boleia que rendeu uma tarde especial. Convidaram-nos para almoçar, nós levamos umas cervejas e eles providenciaram todo o manjar, e que manjar! Fruta pão sempre presente. Peixe, oh meu Deus! Hummm. Ali provei izaquente, uma espécie de feijão que as senhoras pisam com uma pedra e servem em puré. Ótimo! No final, descobri que quem confeccionou as delícias servidas era cozinheira no hotel do Ilhéu das Rolas – que estava fechado em obras na altura. A casa era o antigo hospital e nela vivia uma pequena comunidade com muitas crianças. De sobremesa, abri o porta bagagens e distribuí roupa por todas aquelas crianças e senhoras. E anzóis para os senhores. Ver aqueles sorrisos de surpresa e gratidão não teve preço.

Tive outra tarde fantástica no Monte Café, outra roça. Era domingo. Dia da família. Fui convidada para almoçar por um grupo de mulheres que cozinhava para a comunidade num fogareiro à porta das casas. As meninas fizeram-me trancinhas e as senhoras mimaram-me com a melhor comida que incluía búzios, banana, e claro, vinho de palma.

O mais encantador de São Tomé é perceber que não existe miséria. É claro que há muita pobreza. É lógico que a população predominante vive com muito pouco dinheiro e tem acesso a quase nada do mundo capitalista. Mas, na minha concepção, miséria é fome. Em São Tomé nunca haverá fome. O mar é riquíssimo em fauna, oferece cada pescado que é de chorar por mais. As árvores abundam fruta da mais alta qualidade com uma variedade incrível. Até o vinho para alegrar as festas vem da palmeira. Extraordinário. Talvez ali fosse possível materializar a utopia de “muito amor e uma cabana”. Quem sabe?!

Seja no registo viagem aventura 4×4 ou num registo mais sereno hotel 5 estrelas, São Tomé é um destino imperdível para quem quer desbravar natureza, relaxar e fugir do quotidiano urbano.

Quero voltar várias vezes. Na próxima, tenho de conseguir mergulhar. Imagino a riqueza que está submersa naquele ponto do mapa mesmo em baixo do Equador. A ilha do Príncipe e o Ilhéu das Rolas também terão de fazer parte do itinerário. Poder ficar mais de uma semana é uma ótima ideia. Segue o Top 10 a não perder.

Top 10 São Tomé e Príncipe:

  • Praia Piscina, Porto Alegre. Ir com tempo para aproveitar o momento zen; 
  • Praia de Morro Peixe – Conhecer o Projeto Marapa. Ver a desova e libertar tartarugas;
  • Praia Micondó (também tem o Projeto Marapa) – Tomei banho de mar à chuva e à noite, outra para lembrar com um sorriso inocente.
  • Roça São João dos Angolares. Só para uma refeição ou para passar uns dias. Eu preferiria a segunda. Boa onda e tratamento diferenciado; 
  • Beber um bom expresso no Chico´s café (antigo Café & Cia), espaço com cachê, boa pastelaria e oportunidade de encontrar os intelectuais e burgueses da sociedade local;
  • Visita ao Ilhéu das Rolas. Imperdível (mas eu perdi);
  • Cachoeira de São Nicolau (demais!). A natureza ali grita: “Eu sou grande!”;
  • Ilha do Príncipe (marcar avião com antecedência. De barco somente para o mais resistente marinheiro. Uma espécie de Cabo das Tormentas, segundo dizem). Ilha virgem de sonho.
  • Mercado Municipal (Não escrevi sobre, mas tive um momento mágico de música e dança com as feirantes. Nunca fotografar sem pedir autorização. Ir com calma. Depois das caras sisudas, abrem-se grandes sorrisos).
  • Fábrica de chocolate Corallo (oportunidade de ver passo a passo como são confeccionados uns dos melhores chocolates do mundo com o cacau de São Tomé. Recomendo o de sal e pimenta para acompanhar com vinho tinto e os de sementes de variedades de café da terra). 

O que levar para dar: Roupas de verão de todos os tamanhos para os 2 géneros, material de pesca (essencialmente simples anzóis), roupa interior, livros, material escolar, brinquedos e produtos de higiene. (também levei bijutaria e maquilhagem que não precisava). Por muito que as crianças tenham o hábito de pedir doces, eu preferi encarar a frustração deles ao perceber que eu não tinha aquilo que esperavam e surpreende-los com outros artigos que considero mais salutares.

O que trazer: Rosas de porcelana, das flores mais bonitas para embelezar uma sala ou um escritório. Chocolates Corallo (fora de São Tomé vendem-se somente em lojas gourmet e, certamente, serão muito mais caros por serem importados).

Assuntos a tratar antes de viajar: Se tiver tempo, fazer consulta do viajante (não se perde nada). Não são necessárias vacinas. Pedir visto de turista com 1 semana de antecedência (levar foto 3×4) na Embaixada localizada na Av. Almirante Gago Coutinho, em Lisboa.

Boa viagem!