Dublin Calling


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Mais uma viagem organizada em cima das coxas da noite para o dia. Não sei se era para dar certo ou não, o que é garantido é que quando um touro mete uma coisa na cabeça é praticamente impossível tirar. E assim começam as odisseias.

Primeira missão impossível: to pack! Como colocar roupa de inverno para uma vaidosa e para um bebé de fraldas num trolley de cabine?! Não sei, mais consegui.

Segunda missão impossível: Apanhar o comboio numa bela manhã para Faro com o objectivo de embarcar num daqueles voos fantásticos da Ryanair para Dublin. Primeiro passo = failed. Exacto. A chegar esbaforida a empurrar boby e carrinho de bebé à estação do Oriente com ar de esgazeada pergunto à fila se posso passar à frente. Gentilmente concedem. Abro a carteira e enquanto percebo que não tenho o cartão multibanco, a senhora do guichê informa que o comboio já partiu. Hmmm…todos os palavrões me passaram pela cabeça em vários idiomas, mas agora era pensar rápido. “Auto-carros? Não, vou de carro, vou de carro. E o cartão???”

Lá vai a Sofia de volta ao supermercado onde toma o pequeno-almoço todos os dias e, sim, estava lá o bendito cartão. Liga GPS e siga, Farooo!!! Eram os últimos cartuchos do mês de Setembro e tinham de ser bem gastos. Vamos fazer um reset e começar o dia do zero. Kings of Convenience, play. A verdade é que era o único CD que tinha no carro – mais gasto que sei lá, até o meu filho já sabe as letras de cor –  e o iPod começou a dar interferência e blá blá. Aproveitar o sol na estrada é sempre bom para pensar na vida. Intercalar o meu CD com músicas infantis, uma necessidade. E assim, se passaram quase 300km e enfim, já que já tinha gasto gasolina e portagens que não estavam no script, vamos dar um up neste programa e colocar o carro no parque sem medos. Operação estacionamento, check.

Ok, agora vai dar tudo certo. Chegámos mesmo a horas e faço aquele check-in rápido e maravilhoso e siga. Tá bem tá. Havia uma fila gigante e, claro, era a minha. Há quem tenha um diabinho e um anjinho a gerar as contradições de carácter típicas de todos nós. Eu tenho um anjinho e um Caco Antibes.  Só pensei “pobre é uma m#$%&”. Acabou-se de vez o glamour das viagens. Quando era miúda desfilava uma linda necessaire cheia de cremes e perfumes, agora trago um saquinho daqueles de congelar bifes com zipper munido de 2 ou 3 amostras ou algo que valha. Salas VIP? Onde é que elas andam? Querida, você vai viajar de low cost! Ok, vamos inspirar e expirar enquanto o meu filho com menos de 2 anos se apaixona loucamente por uma Irlandesa com uns 7. Prioridade nem pensar, afinal naquela fila eram só seniores e crianças, logo, vamos esperar.

Na hora do check-in ainda podia haver granel porque nada comigo é fácil, mas ele perguntou-me se eu era staff e eu disse que sim. “Qualquer coisa amor, estou com uma neura que hoje posso ser a Tomb Rider, mas não me contrariem mais, por favor, sim?”🙂 A autorização para viajar com menores é que estou à espera que me peçam até hoje. Incrível como é fácil traficar crianças neste país. Mas, ok.

O meu filho estava contente e isso era o que valia todo aquele stress. Dentro de poucos minutos deveria estar a bordo de um boeing qualquer e isso tranquilizava-me. Bom, lá vim eu mais uma vez de trolley emprestado porque acho sempre que o meu samsonite amarelo é muito pequeno. Se calhar porque o meu tem, efectivamente, as medidas standard! Quando chegamos ao controle das bagagens de mão, fomos recebidos por uma criatura deplorável da groudforce que queria muito complicar. E não é que o trolley da vovó não entra nesta coisa?! O quê? Mais 50€??? Daqui a pouco poderia estar em Nova Yorque! Já não tinha condições para nenhuma operação de charme. Aliás, maquilhagem zero e o meu lindo brushing convertido num daqueles coques mal feitos no topo do crânio que mais fazem lembrar um dia de faxina, o que vale é que está na moda! A situação estava a ficar perigosa, mas eis que surge um superior hierárquico (depois de eu ter sido um tanto desagradável) que me ajuda a colocar o trolley ao contrário. Deu certo. Quer dizer, ficou entalado e não saia dos ferrinhos, mas no final já estávamos a caminho da manga ou do auto-carro, não tinha percebido bem. Afinal eram escadas, qual quê?! Uma mulher viaja sozinha com bagagem de mão, carrinho de bebé com um lindão de 15 quilos e tem de conseguir descer escadas? Ok, estamos em Portugal! Nunca tinha visto tal coisa em nenhum daqueles aeroportos palhota de terceiro mundão. A luz ao fim do túnel tinha quatro divisas no ombro e uns lindos olhos azuis, ok….not bad. Tudo operacional, vamos embarcar. “Salvador, vamos entrar no avião!” Parecia uma pindérica, mas o excitamento foi partilhado com o meu príncipe que vibrou com a ideia.

Quando embarco e vejo aquele aglomerado de gente e sinto aquele cheiro a pele só penso “baaahhh pobre é uma m$%&#”. Isto é pior do que voar os Fokker 100 da TAM algures no Norte do Brasil. Desculpem, mas que saudades de um 747! Pensava eu que ia sentar-me imediatamente e poder desmaiar à vontade quando o comissário simpaticamente tenta fechar o cabo do trolley que avariou. OMG! A última viagem dessas foi para Roma e mandarem o meu boby para o porão significou 4 dias sem roupas e afins, nãaaooo! Mas, sim, a malinha teve de ir para o porão (mas não paguei!) e a situação só fechou com chave de ouro porque o bonitinho não sabia o que queria dizer INF e deu-me 2 assentos para nos hipoxiarmos durante quase 3 horas.

Dublin acolheu-nos lindamente com direito a festa e Guiness no Arthur´s Day e passeios pelo Grand Canal, Temple Bar, Trinity College e todos esses ícones. Viajar é sempre muito bom, mas a minha fase favorita continua a ser chegar a casa.